Nem sombra, nem memória…

Acordei com uma vontade incrível de vadiar, sair pelas
praças deste Porto e caminhar ao som do vento. Só do vento que vem, chega de
mansinho e traz um arrepio como se me beijasse na nuca, no rosto, nos lábios…
Devia mesmo sair em paz. Ir ao sabor do gesto na delicadeza de passos incertos
numa cidade que há muito me adoptou como seu. Não se entende esta necessidade
de ir sem saber onde chegar. Apenas sei que ir e voltar são duas partes do
mesmo todo e quero ir para saborear a volta. E não há medida que possa
quantificar o quão gostoso é entrar nas quatro paredes que me conhecem melhor
que qualquer pessoa. E apetece mesmo desligar o computador, vestir a roupa
casual e sair, sem caso e no acaso. No banco do jardim olhar as pombas que
bicam o chão. Os velhos passando, os namorados de lábios entretidos, bocas
molhadas e corpos ardentes de desejo. Ver a vida passar sem pressas. E com a
mesma lentidão apreciar os pequenos gestos de tão grande prazer. A paz nos
sentidos, o coração palpitante e a boca seca. A percepção de que o
Outono/Inverno chegou finalmente e se apodera de mim. Há muito cinzento, vento,
chuva e nostalgia no ar. Há muita melancolia pelo Tempo em que o tempo estava
melhor. Não eram as nuvens, o frio ou a chuva que importavam mas de coração
aberto sentia-se muito mais calor. Queimava o rosto e rente à pele passava sempre
uma brisa viva que incendiava o avesso da alma. E hoje, na paz do banco do
jardim, aguardo que alguém me veja ali. Corpo sedento, lábios que se demoram a
soltar das amarras, do amordace que me colaram à pele. Permaneço de rosto
fechado, agasalhado pela gabardine e concentrado no livro que sobre o meu colo
permanece aberto à espera que novas páginas se escrevam por si… Não vou fazer
um único gesto. Não vou pegar na caneta e escrever, ao meu jeito, nenhuma
história. Tudo virá naturalmente. E se não vier é porque não tinha de ser e na
paz do banco do jardim, parado e atento, vou permanecer eternamente até que nas
costas cresçam as asas e de mim nada reste, nem sombra nem memória… E não me
assusta nem um pouco não ficar nem lembrança do que fui, sou ou serei. Não faço
nada para a prosperidade. Nem sequer por mim mexo uma pedra. Só por ser melhor
para os outros sou capaz de mover uma montanha. E abdico das lembranças e
memórias que podiam ficar de mim pela felicidade de quem gosto… Prefiro ficar
na paz do banco do jardim e que não fique de mim nem sombra nem memória mas
apenas o riso de quem gosto como a mais perfeita imagem da minha vida…

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