‘ nada melhor que uma boa companhia para festejar ‘

Não passei pelas festas de S. João durante a minha infância mas a inocente e humilde alegria destas festas no Porto trazem-me sempre à memória a fantasia de o ter feito. E se tivesse acontecido, imagino que seria assim:
Nas escadas à porta de casa brinca um rapaz de calções rasgados. A t-shirt suada e manchada e a cara marcada pelas brincadeiras do entardecer. Tem na mão um carro mas é apenas um disfarce. Permanece atento enquanto nas traseiras se ouvem os sons da confusão de gente e de cheiros. E como são intensos esses cheiros.. É a sardinha que arde na brasa e as febras que teimam em demorar  mais que a fome instalada já na vontade. O rapaz permanece isolado e atento ao que os mais velhos dizem. Ao que se discute e ao que não se discute. Fica entediado e sai das escadas com um simples aviso à mãe. Vai em busca de alguém ou de qualquer coisa que prenda a sua atenção. Desce as ruas do Porto apenas com os calções e a t-shirt. Chega á ribeira e pelo meio da confusão vai vendo as caras e imaginando, só de olhar para o que vestem, como são. Quais os defeitos e qualidades que possuem. Imagina-se no meio de um grupo de gente interessante. Pessoas que saibam o querem e o que dizem. Cruza-se com as pessoas humildes da rua. Aquelas que não sendo sem abrigo têm pouco mais que a alegria contagiante de quem é feliz com o que tem e o que pode.  Tem simpatia por todas essas pessoas apesar de não ser fácil discerni-la por entre o sorriso tímido. Continua pelo seu próprio pé em busca de qualquer coisa. Algo muito mais importante que o cheiro a sardinha, febras ou vinho tinto. Não entende porque está sozinho numa noite em que todos se abraçam e esbanjam sentimentos. Precisa crescer para entender que pouco mais há ali que a falsa aparência de um mundo sorridente e feliz. A maioria das pessoas não sente aquilo, não está eufórica por uma qualquer onda de alegria que chegou e inundou a avenida. É o alcool misturado com muita ânsia de se possuir a felicidade que não se cria. Mas naquele dia o rapaz não entende. Isola-se inocentemente sem perceber que a sua intuição é a maior das suas armas. Continua a pé desde a ribeira e vai caminhar toda a noite até chegar a Matosinhos.  Passa por ruas, milhares de pessoas e muito movimento. Olha rostos, roupas, carros, bancadas de comida e bebida e até para os animais que amiúde vão aparecendo nos jardins. Foge de umas pessoas sentindo o perigo. Aproxima-se de outras esquecendo por momentos a timidez. Caminha só por caminhar e termina a noite algures com a necessidade de voltar a casa. Sabe que alguém o espera no silêncio de mais uma noite bem passada. A solidão sempre foi uma boa companheira e nada melhor que uma boa companhia para festejar…
 
Beijo
 
 
 
                      Marco
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