‘ E saber sentir é o que me resta ‘

Acordei calado. Atrasado e cansado. Levantei-me da cama com a preguiça e a lentidão de gestos de quem precisa de mais horas no descanso. Mas, falando de descanso, tenho tido muito pouco. De menos para quem tem tanto para fazer e tão pouco tempo. Corri contra o tempo para não perder o comboio e cheguei a uma estação tão cheia de gente e ao mesmo tempo tão oca. O silêncio avassalador de uma manhã onde todos estão entretidos com os seus próprios pensamentos e não há espaço para o som. Entraram todos no comboio. Eu fiz questão de ser o último para ficar com um daqueles lugares que ninguém quis antes. É um velho hábito de ficar com o que sobra e que tem tanto valor. Sentado abri o livro e fiz toda a viagem mergulhado em letras, palavras, frases e textos ligados exclusivamente para contar uma história, um romance. Cheguei a Coimbra e apressado atravessei a cidade para vir trabalhar. Foram 20 minutos a andar e enquanto os passos mecânicos perseguiam não se sabe bem o quê, ia ocupado a pensar. Não me lembro bem em quê ou no quê. Só sei que estava completamente concentrado no que estava a pensar. Não vi rostos, pessoas ou edifícios. Só quando cheguei à faculdade tomei consciência de que fiz mais um caminho sem perceber. E não é a vida assim mesmo? Andamos constantemente a percorrer caminhos que não entendemos, que não lembramos de atravessar. Pontes, atalhos e estradas são escolhidos meio ao acaso, guiados pela intuição, ou apenas porque somos conduzidos pela mão. Seguimos muitas vezes em manada sem pensar, sem interrogar porque vou por aqui ou apenas porque estou aqui… Iniciei o trabalho preocupado por poder estar a ser conduzido num caminho que não lembro o intermédio. Qual a estrada que escolhi? E terei mesmo escolhido ou apenas segurado uma mão que me levou onde ela queria e não onde eu precisava?
 Quero caminhar só. Sem mãos, qual trapezista sem rede, quero arriscar ter de errar. Posso ter defeitos gravíssimos como não ouvir, ter um ar arrogante, não estar atento ou desprezar opiniões.. mas sei sentir. E saber sentir é o que me resta…
 
bj

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